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"confusion de confusiones"

Que horas são? In jornal Expresso - Economia por João Duque, Professor Catedrático Finanças no ISEG

E eu sei? Mas isso interessa? Os portugueses são muito curiosos na sua relação com o tempo. Uma noiva faz o noivo esperar uma meia hora ou uns bons 45 minutos. Só o padre tem poder para a apressar sob a ameaça de que um atraso superior a 15 minutos significa a não consumação da cerimónia, já que a conjugal não é para aqui chamada.

Nas escolas (e não só) é conhecido e aceitável um atraso de 15 minutos “académicos” que todos toleram porque é suposto que a “falta” só se regista depois de esgotado esse prazo. Nas empresas, as reuniões raramente se iniciam à hora. Nos tribunais as sessões não se iniciam a horas. É comum os transportes públicos (mesmo os que se deslocam sobre carris) atrasarem. Os aviões também. Um político raramente chega a horas e quando marcamos uma reunião com alguém mesmo fazem-nos esperar. A ideia parece ser a de que a importância do visitado é proporcional ao atraso com que recebe os visitantes.

Deve ser por isto que Portugal lidera o ranking dos países que mais se atrasam nos pagamentos na economia.

A Intrum Justitia acaba de divulgar os dados sobre os prazos de pagamentos na Europa, e Portugal é dos campeões em todas as categorias e modalidades...

Chegámos ao bonito espetáculo do nosso Estado acordar pagar a 49 dias e pagar em média a 95 dias. 46 dias de atraso!

Na modalidade dos prazos de pagamento acordados, Portugal é o 3º pior país da Europa em prazos de pagamento negociados entre empresas (com 46 dias), é o 5º pior nos pagamentos dos consumidores finais às empresas (com
31 dias) e 4º pior nos pagamentos fixados pelo Estado para o pagamento dos seus compromissos (com 49 dias). Note-se que todos estes prazos são ilegais à partida, pois a diretiva europeia dos pagamentos estabelece como regra que todos os pagamentos se devam fazer a 30 dias e só em condições excecionais e devidamente justificadas se possa alargar aos 60.

Mas o mais interessante é quando se medem os prazos efetivos de pagamento... E aí somos o 2º pior país da Europa a pagar em termos de consumidores finais (39 dias), o 2º pior nos pagamentos dos Estados aos seus cidadãos (95 dias) e o pior país nos pagamentos entre empresas (66). Mas ainda há mais: somos os mais mentirosos e relapsos, porque a diferença entre o prazo que acordamos e a data em que pagamos é a maior da Europa para todos os grupos. Chegámos ao bonito espetáculo do nosso Estado acordar pagar a 49 dias e pagar em média a 95 dias. 46 dias de atraso! Acresce que o Estado agravou esta diferença, uma vez que no ano anterior este atraso entre o prazo acordado e o efetivo era de 17 dias. Há dinheiro para amortizar dívidas mas não para pagar às empresas? Assim também eu sou um Ronaldo das finanças...

Deixem-se de propagandear milhões. Querem melhorar a competitividade das empresas portuguesas, em particular das PME? Honrem a palavra dada!

Paguem-lhes!

Fonte: Jornal Expresso Economia 18-11-2017
Autor: João Duque, Professor Catedrático Finanças ISEG