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"A banca portuguesa está a dar passos no sentido certo"

Aquando da sua visita a Portugal no início do mês de Junho, o nosso CEO Mikael Ericson, concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal Económico.

Em entrevista exclusiva ao 'Económico', Mikael Ericson, CEO da Intrum Justitia, empresa especializada na recuperação de créditos, diz que o grupo sueco vai continuar a apostar em Portugal.   O administrador executivo do grupo que está presente em cerca de 20 países, apenas na Europa, revelou ao 'Económico' que nos últimos anos a Intrum Justitia (IJ) investiu cerca de 75 milhões de euros no reforço da sua presença no mercado nacional, incluindo a recente aquisição da Logicomer, com sede no Porto. 

Numa altura de crise, como Portugal pode ser atractivo para uma empresa como a IJ?
Porquê Portugal? Porque continuamos a ver no mercado português uma oportunidade, queremos continuar a trabalhar em Portugal, que continuamos a considerar um país importante para a nossa estratégia de desenvolvimento.

Como se tem concretizado essa aposta da IJ em Portugal?
Ainda há poucos meses investimos na aquisição de uma empresa em Portugal, a Logicomer, com sede no Porto, especializada na gestão e recuperação de créditos, para ficarmos maiores e melhores neste mercado. Esta é a nossa marca natural de construir a nossa presença em Portugal. Estamos muito contentes e felizes em Portugal.

Quer dizer que a crise não vos afecta?
Não é o primeiro ciclo de crises por que passa a IJ. Nos últimos anos, investimos cerca de 75 milhões de euros na aquisição da empresas e activos em Portugal. Portugal é um dos nossos mercados-base. Estamos sempre interessados em comprar novas companhias. Temos uma base muito forte em Portugal. Mas não estamos interessados em comprar por comprar. Compramos porque é eficiente para os nossos clientes. Temos de investir numa óptica oportunista e de necessidade.

A grande base de clientes da IJ em Portugal é corporativa ou individual?
Nós queremos continuar a comprar carteiras de ‘portfólios’ de créditos em Portugal, principalmente de dívidas de consumidores individuais. É essa a nossa tradição. E também gostamos de operar na área dos empréstimos hipotecários e das PME – Pequenas e Médias Empresas, um mercado que se desenvolveu bastante em Portugal. Continuaremos interessados em intervir nestas áreas em Portugal. O facto de termos investido nos últimos anos cerca de 75 milhões de euros em Portugal demonstra o interesse da IJ neste mercado, em trabalhar com companhias portuguesas.

E quais são as vantagens que proporcionam a esses clientes corporativos, por exemplo?
Fazemos com que esses clientes corporativos sejam pagos pelos créditos vencidos, as chamadas ‘non performing debts’ ou crédito mal-parado. Sabemos que existe um conjunto de bancos portugueses que estão a vender ‘portfólios’ de activos, mas somos uma companhia que está mais interessada em adquirir carteiras financeiras de créditos.

Quer dizer que não estão interessados em adquirir activos tóxicos de bancos ou dos chamados 'bad banks', que possam ficar disponíveis nos próximos tempos no mercado português?
Não estamos interessados nesses activos tóxicos dos bancos.

Então, quais são as outras áreas em que pretendem apostar em Portugal?
Claro que também queremos estar activos no apoio, no suporte aos bancos portugueses, que estão numa viagem de longo prazo. A reestruturação dos bancos portugueses passa pela limpeza dos balanços e por mudanças ao nível da regulação do sector. Ser pago pelos seus serviços é muito importante para todos, mas principalmente para os bancos. Quanto ao interesse em ‘portfólios’ de bancos portugueses, se virmos uma oportunidade, iremos aproveitá-la. mas não estamos interessados nos activos tóxicos dos bancos.

É a banca o principal cliente da IJ em Portugal?
Em Portugal, trabalhamos com os maiores bancos, mas também com as maiores empresas de telecomunicações ou de ‘utilities’, por exemplo. E trabalhamos com muitas empresas financeiras. Temos como cientes os bancos ou as ‘utilities’ mas a nossa missão é ajudar os consumidores a sair de problemas financeiros. Uma economia sã tem de ter uma sociedade de consumo apropriada. A nossa missão é ajudar os nossos clientes a sair de problemas financeiros. Por isso, todos os dias contactamos cerca de 55 mil indivíduos nos países em que operamos, na Europa.

Em Portugal, quantos contactos diários são feitos?
Em Portugal, os contactos diários variam entre dois mil e 2.500. Tentamos ser muito humildes nesses contactos. Não emprestamos dinheiro. Tentamos ajudá-los a encontrar uma maneira de cumprir o pagamento das suas dívidas.

Quantos empregados tem a IJ em Portugal?
A estrutura da IJ em Portugal é de cerca de 160 colaboradores neste momento.

Uma vez que são alguns dos vossos maiores clientes, como vê as sucessivas e crescentes dificuldade do sector bancário português nos últimos anos?
É verdade que Portugal tem tido dificuldades com a indústria financeira. Por um lado, a regulação tem apresentado maiores exigências e isso vai obrigar a uma viagem de longo prazo para enfrentar os desafios. No nosso entender, a resposta terá de passar pela consolidação, seja através de aumentos de capital, seja por intermédio do desinvestimento de activos não estratégicos, seja ainda pela concretização de processo de fusão entre bancos.

Tendo em conta os desafios que enumerou, pensa que estamos a caminhar no sentido dessa consolidação, com aumentos de capital ou fusões?
Mas penso que o sistema financeiro português está definitivamente a caminhar no sentido certo, está a dar os passos na direcção correcta. Claro que quando existe um problema como este, não há soluções rápidas. Do ponto de vista do negócio, a banca portuguesa também tem de enfrentar uma mudança do modelo de negócio, que é a crescente digitalização, do ponto de vista individual do cliente. Os consumidores estão cada vez mais a optar por utilizar ferramentas para uma vida que se desenrola de uma forma mais rápida e tecnológica. Do ponto de vista dos bancos, a posição tem de passar pela alienação de activos e pela redução de custos. Nesse sentido já muito foi feito em Portugal. Foi uma jornada penosa. A Alemanha já passou por isso, o que é inevitável. Nos últimos dois ou três anos, mais de mil balcões de bancos foram fechados.

O que pode a IJ proprocionar aos bancos portugueses nesses processos?
Outra tarefa importante da IJ é adquirir activos, créditos. Como é que podemos ajudar os bancos portugueses? Sabemos que os bancos nórdicos e anglo-saxões estão mais focados em conceder empréstimos à economia do que a fomentar o consumo ou actividades mais especulativas, mas a missão da IJ é ajudar os bancos portugueses a adquirirem ‘portfolios’ que lhes sustentem a liquidez, que lhes permitam avançar para novas iniciativas, lhes reforcem o capital e a liquidez. Para a economia ser sólida, a banca tem de ser sólida. E para a banca ser sólida, tem de ter um bom perfil de dívida e um balanço saudável.

E em termos gerais, como classifica Portugal no capítulo da recuperação das dívidas, em comparação com os outros países em que a IJ está presente?
No caso da recuperação das dívidas, no Norte da Europa o comportamento sobre os pagamentos aponta para um prazo médio de 35 dias, enquanto no Sul da Europa, esse prazo médio passa para 85 dias. No entanto, esse prazo em Portugal é bastante inferior, de 68 dias. Mas em Portugal existem maiores ciclos de recuperação das dívidas. E tentar reduzir estes atrasos é essencial para melhorar os ‘cash flows’ das empresas e dos bancos.